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Pesquisa no exterior · Japão

Terceira dentição: o que a ciência japonesa investiga sobre fazer crescer novos dentes

Um anticorpo experimental chamado TRG035 está em testes no Japão. A ideia é estimular o próprio organismo a formar dentes novos. Ainda é pesquisa, e não um tratamento disponível.

13 de outubro de 2026
Terceira dentição: o que a ciência japonesa investiga sobre fazer crescer novos dentes
A reportagem

Entenda a pesquisa

Duas dentições, e uma pergunta

Ao longo da vida, o ser humano tem apenas duas dentições: a decídua, os conhecidos dentes de leite, e a permanente. Quando um dente permanente se perde por cárie, doença da gengiva, trauma ou porque nunca se formou, o organismo não o repõe. Hoje, a Odontologia substitui o dente ausente com implantes, próteses e reabilitações.

Uma linha de pesquisa no Japão faz uma pergunta ousada: e se fosse possível "religar" no organismo o processo que forma os dentes e estimular o surgimento de um dente novo? É a chamada "terceira dentição". Na literatura científica, o termo costuma aparecer assim, porque se refere a uma dentição além da decídua e da permanente.

A proteína que funciona como um freio

No centro da pesquisa está a USAG-1, também chamada de SOSTDC1. É uma proteína que atua como um freio duplo no desenvolvimento dos dentes: ela inibe duas vias de sinalização importantes para a formação dentária, conhecidas como BMP e Wnt.

Em camundongos que não produzem a USAG-1, a sinalização BMP fica mais intensa e aparecem dentes a mais, os chamados supranumerários. A partir dessa observação, os cientistas desenvolveram anticorpos que bloqueiam a USAG-1 e testaram se isso bastaria para estimular a formação de dentes.

A proteína que funciona como um freio
Ilustração artística gerada por inteligência artificial. Não representa imagens reais do estudo.

O que foi observado nos animais

O estudo-chave foi publicado em 2021 na revista Science Advances, por pesquisadores das universidades de Kyoto, Osaka e Fukui, entre outras instituições, tendo K. Takahashi como um dos autores correspondentes. Foram testados cinco anticorpos em camundongos de laboratório, inclusive em modelos de agenesia dentária, a falta de dentes de nascença.

Os anticorpos que bloqueiam a ação da USAG-1 sobre a via BMP foram os mais eficazes. Em camundongos com falta de dentes, um deles recuperou a formação dos molares de forma dependente da dose. Em alguns animais, uma única aplicação gerou um dente completo, e em outros surgiram dentes supranumerários.

Em furões, que têm uma dentição mais parecida com a humana, o anticorpo fez surgir um incisivo extra na maxila, semelhante a uma terceira dentição. Porém, foram necessárias doses cinco vezes maiores, três aplicações e o uso de imunossupressão, o que mostra que o caminho até uma aplicação segura em pessoas é longo.

Do laboratório ao ser humano

A tecnologia deu origem ao TRG035, um anticorpo desenvolvido pela empresa japonesa Toregem BioPharma. Vale a transparência: o estudo de 2021 foi financiado pela própria empresa, e uma das universidades envolvidas possui patente relacionada ao trabalho. Isso é comum no desenvolvimento de medicamentos, mas é um dado importante para quem lê.

A primeira fase em humanos (fase I) foi um teste de segurança, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com homens adultos saudáveis que receberam doses únicas por via intravenosa. A empresa informa que a segurança foi confirmada, mas os resultados detalhados ainda não foram divulgados publicamente.

O passo seguinte planejado é a fase IIa, com 24 crianças que nascem com falta severa de dentes (agenesia dentária congênita). Em agosto de 2026, a agência reguladora japonesa concluiu a análise da notificação do estudo, mas ainda são necessárias a avaliação do comitê de ética e a definição da data de início. A notificação não equivale à aprovação do medicamento. Em maio de 2026, a empresa informou ter captado US$ 5,3 milhões para financiar essa etapa.

Se os testes derem certo, a meta declarada é oferecer o tratamento por volta de 2030, a princípio a crianças com dentes ausentes de nascença. Alcançar adultos que perderam dentes por cárie ou doença periodontal é uma ambição de longo prazo, ainda sem comprovação.

Do laboratório ao ser humano
Ilustração artística gerada por inteligência artificial. Não representa imagens reais do estudo.

O que ainda é incerto

Até agora, não foi demonstrado que o medicamento faz crescer dentes em seres humanos. Os resultados de formação dentária vêm de animais. Os próprios autores do estudo apontam limitações: o efeito depende do gene responsável pela falta do dente, nem todos os modelos responderam, e algumas doses e condições usadas nos animais, como no furão, não são aplicáveis diretamente a pessoas.

Também não se sabe ainda se os dentes formados teriam o tamanho, a forma e a posição adequados, nem como seria o acompanhamento a longo prazo. Essas respostas só virão com os estudos clínicos em andamento e os que ainda serão realizados.

O que ainda é incerto
Ilustração artística gerada por inteligência artificial. Não representa imagens reais do estudo.
O que isso significa hoje

Por enquanto, os implantes osseointegráveis e as reabilitações orais continuam sendo o tratamento estabelecido, seguro e previsível para repor dentes ausentes. Acompanhar pesquisas como esta faz parte da atualização constante do profissional, mas elas não alteram a conduta clínica de hoje.

Pontos importantes
  • Ainda não foi demonstrado que o medicamento faz crescer dentes em seres humanos.
  • Os primeiros candidatos seriam crianças com falta de dentes de nascença.
  • Adultos que perderam dentes por cárie ou doença periodontal: possibilidade de longo prazo, sem comprovação.
  • Notificação da agência reguladora não é aprovação de medicamento.
Linha do tempo
  • 2021Estudo em animais publicado na Science Advances.
  • Mai/2026Empresa informa captação de US$ 5,3 milhões para a fase II.
  • Ago/2026Agência japonesa conclui análise da notificação da fase IIa (24 crianças). Início ainda sem data.
  • Meta: ~2030Previsão da empresa, se os testes forem bem-sucedidos.

Conteúdo informativo sobre pesquisa científica, escrito a partir das fontes citadas. Não é indicação de tratamento nem promessa de resultado. Para avaliar o seu caso, agende uma consulta.

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